a miséria da superioridade
sentir-se superior conforta o ego, mas sabota a maturidade
João Pessoa, fachada do Grupamento de Engenharia do Exército. Uma mão vacilante sobre o muro, outra na haste negra da bandeira. Camisa da seleção. Tinta verde no rosto. Barba aparada. Grito grave, daquele que arranha a garganta. A voz rouca trepida um pedido de socorro. Em nome dos filhos, da família, da nação. A cena que descrevo ocorreu em 14 de novembro de 2022. Sempre quis saber como se seguiram os dias daquele homem.
A rigor, não passa de uma reação patética após uma derrota eleitoral. Há com ela um aspecto risível, ridículo mesmo. Como um pai de família — provavelmente um adulto funcional, com trabalho, responsabilidades e contas a pagar — pode de repente agir movido pelo desespero sofrido da criança birrenta que não ganhou o brinquedo no passeio do shopping?
Ao assistir a cena gravada, contudo, não me veio riso. Senti uma sincera compaixão. Qual pode ser a fonte de tamanho desespero? O que se passa na subjetividade daquele homem feito que projeta, sobre militares sem rosto, a idealização de uma paternidade onipotente?
Confesso ter bastante dificuldade de imaginar de que forma concreta a mudança de inquilino no Palácio do Planalto, há mais de 2 mil km de distância, poderia impor uma mudança tão substancial, capaz de despertar tão profundo sofrimento, no cotidiano, na vida real, de carne e osso, daquele jovem pai de família de João Pessoa. Que deixou de estar em casa com a família para clamar socorro aos militares.
o pertencimento ao poder corrompe
Não há humano que não deseje pertencer. Somos seres sociais, criados em famílias. Por instinto, confiamos nos parecidos e tendemos a desconfiar dos diferentes. Assim evoluímos, sobrevivendo às adversidades. Correspondendo aos chamados da tribo.
Apenas na modernidade, com a rápida transformação das tecnologias de transporte e comunicação, passamos a conviver mais intensamente com as diversidades de origens. O Brasil como conhecemos é resultado desse samba.
O problema não está em pertencer. Está no modo em que buscamos a pertença. Até que ponto transferimos ao grupo responsabilidades e sentidos que deveriam ser nossos, individualmente? E quando utilizamos o grupo como um símbolo para apagar as nossas vulnerabilidades pessoais?
Grupos que nos soam muito poderosos exercem uma força gravitacional de atração. Fazer parte deles nos mune pessoalmente do poder que os atribuímos. Poder e pertencimento se confundem. Em nossa fantasia.
Projetamos super poderes como instrumentos compensatórios diante das nossas faltas. Se não encaramos a falta, contudo, como podemos nos mover?
Há mais de 2 séculos, em sua Teoria dos Sentimentos Morais, Adam Smith escreveu:
A disposição em admirar e quase idolotrar os ricos e poderosos e, ao mesmo tempo, negligenciar os pobres é a maior e mais universal causa de corrupção dos nossos sentimentos morais.
política na sombra das frustrações
Dinossauros, elefantes, ratos gigantes. Monstros imaginários pelas sombras. No quarto escuro, uma lanterna projeta o teatro manual. Não é surpreendente que as crianças se encantem, ou se assustem, com o artifício das histórias de parede, narradas desde os tempos mais antigos. Mas segue impressionante como o pânico moral ainda contagia tantos adultos com estratagemas retóricos tão semelhantes.
A lógica da polarização aposta na infantilização. Conta-se sobre o adversário uma história de terror. As sombras na parede soam imensamente maiores e mais assustadoras. Sobre ele pairam todas as nossas frustrações pessoais. Um verdadeiro vilão de novela.
Do outro lado, por contraste, emergem os heróis. Os salvadores da pátria. Nossos amigos, claro. Com eles, podemos sentir toda a superioridade moral que somente nós podemos representar. O time do bem contra o mal.
Nós somos a lanterna. Os outros são as sombras projetadas. O problema de acender a luz do quarto para encarar a fábula como adultos é que, ao apagar os vilões da parede, os heróis da lanterna não parecem mais tão brilhantes.



