experimente a autotelia
breve presságio para um acervo de ensaios liberais
A liberdade é um fim em si mesma ou um meio para outra coisa? Sempre achei essa pergunta divertida. Arrisco o seguinte: a única coisa que realmente importa nessa vida são as pessoas. Pessoas existem concretamente. O resto é criação nossa.
Disso decorre que a liberdade, do ponto de vista social, é necessariamente um meio. Ou melhor, um ponto de partida. O fim é o desenvolvimento das pessoas, as emancipações individuais, o florescer das potencialidades, o aperfeiçoamento das habilidades. Em melhores palavras, o cultivo das individualidades.
Ou seja: a liberdade social é um meio. A liberdade individual é a meta.
Esse é o ponto central do liberalismo: propiciar que as pessoas, livres, sejam o máximo de si mesmas. E não um instrumento terceirizado de propósitos alheios.
Todo o arcabouço teórico elaborado decorre dessa preocupação. Se nos esquecemos disso, a abstração pode nos conduzir a uma distorção grotesca de princípios. Para recordar a mim mesmo, e enriquecer a minha experiência com os contatos que decorrerem dessa disposição, resolvi criar esta autotelia.
Gosto de etimologia, então lá vai: auto, a si mesmo; télikos, propósito. Autotelia, então, é aquilo cujo propósito já reside em sua própria existência. Sem precisar de justificativa alheia. Quer experimentar comigo?
arte como expressão de autotelia
A noção de autotelia entrou na minha vida numa aula de literatura. Não lembro bem quando, porque esse aspecto da lembrança já seria inútil. O importante é que esse contato impactou minha disposição de espírito.
Passei a amar o texto pelo próprio texto. A palavra pela palavra, sentindo o ritmo no palpitar dos pês, das pontas dos pés até as portas fechadas dos pontos.
Aprendi que o sentido literal se amplia quando nos permitimos o contato com a percepção dos sentidos. Quando me dei conta, senti que havia se operado em mim uma espécie de segunda alfabetização.
Aprendi a ler não só a letra, mas também a imagem, o som, a melodia, o ritmo. Foi quando entendi que a linguagem, além de utilitária, também pode ser prazerosa. Não apenas uma ferramenta de comunicação, mas também uma expressão particular. Que pode conter missão, mas também afeto.
Entendi, enfim, que o uso singular da linguagem pode suspirar a retina e nos retirar da rotina. Mas para isso precisamos educar os olhos. Se os mantivermos abertos, a arte é capaz de nos propiciar, em si mesma, pela simples fruição estética, uma experiência humana transformadora.
A arte amplia os horizontes humanos.
política como multiplicação de possibilidades
Dado o uso corrente de “liberalismo” no vocabulário brasileiro, é possível que a presente autotelia, se vier a ser notada por alguém, cause algum estranhamento. Como um conjunto de elucubrações dispersas sobre linguagem e finalidades pode constituir um ensaio liberal?
Para responder, pegarei emprestada a reflexão de um grande nome do liberalismo brasileiro que anda esquecido: Marcílio Marques Moreira. Uma forma burocrática de apresentá-lo é dizer que ele foi ministro da Fazenda do governo Collor. (Ué, mas Paulo Guedes não jurava ser o primeiro liberal da história a ocupar o ministério da Fazenda no Brasil?) Prefiro apresentar de outro modo: ele foi o cara que aconselhou José Guilherme Merquior a estudar sobre liberalismo.
Bem, avancemos para os finalmentes: em ensaio liberal dos anos 1970, Marcílio defende que a posição liberal deve ser menos marcada por “um apego a formas contingentes de atuação política”, como modelos eleitorais específicos, ou “comportamento econômico (livre-cambismo irrestrito)” do que pelas “fontes liberais do pensamento político”: “o direito natural, a defesa dos direitos humanos, a afirmação da liberdade criativa, a aspiração à justiça”.
Para Marcílio, estas tratam-se de fontes perenes, que não se esgotam, “porque derivam de uma origem, um princípio mais alto que coloca o homem, e seu desenvolvimento integral, no cerne das preocupações econômicas, sociais, políticas e filosóficas”.
Nesse sentido, eu diria que um liberalismo político digno de suas fontes perenes entende a política, no sentido amplo da convivência social compartilhada em comunidade, como um importante meio para a multiplicação das possibilidades humanas.
A meu modo, é o que tento fazer na minha atuação pública, no jornalismo e no Livres, movimento que ajudei a fundar e onde trabalho como diretor de operações. Nesses tempos polarizados, a política foi pervertida em briga de tribos. No lugar de ampliar horizontes, promove o fechamento das possibilidades de encontro.
Tento contribuir com uma mudança desse quadro, mas isso já é tema pra outro dia.


