banalidade assassina
quando ser contra assassinato virou uma polêmica entre times?
A universidade estava com a plateia repleta. No palco, um rapaz com ideias controversas abria o microfone para a interação livre com o público. Um elogio à divergência, atividade típica da democracia. Convite ao debate aberto. Interrompido por um tiro. Sangue jorrando. Morte. Não era uma cena de Tarantino.
Charlie Kirk defendia ideias erradas. Ele foi um dos principais fenômenos conservadores por trás da vitória de Donald Trump entre os jovens. Trump está desmontando o sistema liberal internacional e degradando a democracia americana. Para mim, é o pior líder que os Estados Unidos poderiam ter nesse momento da história humana. Mas Charlie Kirk fazia política pelo método certo das sociedades livres. Com a palavra.
Em 2012, bem jovem, Kirk fundou uma organização para propagar seus ideais. Em 2012, bem jovem, junto com alguns amigos, eu fundei o Students For Liberty Brasil para defender a pluralidade no espaço universitário. Kirk deixou filhos e esposa, assassinado em pleno espaço universitário. Eu sinto com isso uma certa dimensão de fracasso. E sigo espantado com o trabalho que ainda temos para superar a cultura autoritária.
Estamos viciados em binarismo. Em tudo ou nada. Charlie Kirk defendia ideias erradas. Foi um jovem idealista, ativista corajoso, com méritos importantes. Não era um verme a ser extirpado. Era um ser humano digno, a ser considerado. E algumas de suas ideias deveriam ser superadas por ideias melhores.
entre a banalidade e o tribalismo
As reações à morte de Kirk exibiram, aos montes, a banalização diante do assassinato político. Afinal, é um adversário a menos. Como se falássemos de um penalti perdido, de um rival que fica pra trás no mata-mata do torneio. Triste sintoma dos nossos tempos polarizados. Esquecemos que é a humanidade o que nos importa. Quando perdemos a dimensão humana, já não há campeonato algum a ser vencido.
Entre milhares de celebrações da morte nas redes, a mais proeminente provavelmente foi feita por Eduardo Bueno, o Peninha. Jornalista gaúcho de estilo extravagante, bem influente na divulgação histórica, até então era integrante do conselho editorial do Senado. Após publicações comemorando o assassinato, teve diversos eventos e contratos cancelados, inclusive pelo parlamento.
Eduardo Bueno defende ideias erradas. É um jornalista de carreira notável, com méritos importantes, o que não o livra de expressões repugnantes. Não é um verme a ser extirpado. É um ser humano digno, a ser considerado. E algumas de suas ideias deveriam ser superadas por ideias melhores.
Nesse contexto, o mercado pode ser um vetor civilizatório: quem lucra com a própria imagem também pode ter prejuízo quando ofende valores básicos. Assim surgiu a campanha “demita extremistas”. A tese é simples: os empresários devem usar seu poder econômico para coibir aqueles que celebram a morte. Se fere a cultura corporativa, quebra-se o elo de confiança.
A princípio, pode fazer sentido. Mas a diferença entre remédio e veneno muitas vezes está na dose. Caso vire uma patrulha ideológica, a postura pode alimentar ressentimento e piorar o problema que desejava combater. Afinal, quem fez um tweet desumanizando alguém também não deve ser desumanizado. Se o método para superar a cultura de desumanização for mais desumanização, caminharemos para a barbárie.
Curiosamente, os criadores da campanha se opõem às práticas ESG nas empresas. Consideravam como “cultura woke” a tese de aliar o poder empresarial à promoção da diversidade, da sustentabilidade e de boas práticas de governança. Nunca é tarde pra mudar de ideia. Só não sei se é realmente o caso.
O risco é que estejamos diante de uma manifestação um pouco mais sofisticada do mesmo tribalismo. De quando agimos convictos da nossa superioridade moral diante dos adversários. Nos outros, vemos os defeitos com nitidez. Mas quando o erro vem do nosso time, ficamos imediatamente cegos, abraçados ao autoengano.
Proponho um teste simples: Quem se escandalizou com a morte de Charlie Kirk também sentiu o mesmo com a morte de Marielle? Quem se escandalizou com a morte de Marielle também sentiu o mesmo com a morte de Charlie Kirk? Quem se escandalizou com Peninha celebrando a morte de Charlie Kirk também sentiu o mesmo diante dos comícios onde destruíram placas com o nome de Marielle?
A política brasileira tem uma enorme questão a tratar. Como sensibilizar para a superação do absurdo as pessoas que seguem deliberadamente ignorando a gravidade do fato de que um conjunto de funcionários públicos, militares de alta patente, articulados na Secretaria Geral da Presidência da República, tramou um plano para assassinar opositores e autoridades?
A autocrítica é mais importante do que a crítica do outro. Mais do que apontar os dedos para os pecados adversários, a possibilidade de vencer a banalização da violência política passa pela capacidade de superar o espírito tribal de desumanização do outro a partir da cultura autorreferente da nossa própria tribo.
a lição do velho Locke
Quando tudo conspira para a desumanização, o nosso maior desafio é permanecer humano. Eis mais um custo de aderir às turbas: não é apenas perder convicções e independência intelectual. O risco final é de perder a própria humanidade.
Começa quando permitimos que o outro, de quem discordamos, seja reduzido a “erro”. Verme, bandido, fascista, comunista, neoliberal — você escolhe o adjetivo. A rotulação estereotipada é o primeiro passo. A eliminação simbólica da humanidade do adversário evolui para a banalização de sua eliminação física.
É quando o outro não apenas discorda de mim. Ele é moralmente repugnante. A divergência de ideias é transferida para a esfera moral. Então o problema não é mais o que ele pensa. Assim a ideia equivocada poderia ser convencida por meio da palavra. O trabalho seria retórico. Agora o problema está no que o outro é. E contra a identidade cristalizada, veja só, só resta a eliminação. Quando ser contra assassinato virou uma polêmica entre times?
Superar esse clima foi a missão que deu origem ao liberalismo. O desejo de purificar o mundo dos pecados alheios levou às guerras religiosas. Publicada em 1689, a Carta Sobre a Tolerância tornou-se um marco na história das ideias. Partindo de premissas cristãs, Locke argumentou que a fé não pode ser imposta: crença é convicção interior, formada na consciência, e portanto imune à coerção externa. A política, em contraste, deve lidar com o que é comum a todos, independentemente da religião — as regras práticas da vida em sociedade. Misturar essas duas ordens é abrir caminho para a perseguição e o fanatismo.
O argumento era simples, mas radical: existe uma esfera de convicção pessoal — crença, consciência, culto — que deve permanecer fora do alcance do poder político, ainda que este se exerça em nome de uma maioria legítima. O espaço público pode exigir obediência às leis comuns; o espaço privado, em contrapartida, deve permanecer independente, regido pela convicção íntima – assim construímos o que veio a ser o direito à privacidade.
Não precisamos conviver na intimidade com quem não gostamos. Mas temos dever de tolerá-los na esfera pública, reconhecendo a legitimidade de sua existência.
Só que as redes sociais bagunçaram a nossa antiga noção de privacidade. Voltamos ao desejo de purificar o mundo dos pecados alheios. E estamos reduzindo os pecadores aos seus pecados.
Quando os impulsos primitivos se expressavam na mesa de bar, numa piada absurda, era um amigo de carne e osso quem ria com carinho e alertava para o ridículo. Agora os afetos absurdos não apenas são expostos em praça pública, como aglutinam ou distanciam gente antes dispersa, que nunca conheceremos na vida real. E por isso mesmo, são instrumentalizados pela política.
A solução liberal não pede que esqueçamos as diferenças. Pede que renunciemos à superstição identitária de achar que pertencer a um grupo nos autoriza a subjulgar o outro. Pede que sejamos capazes de separar o gosto pela convivência privada da necessidade de coexistência pública.
Pense no exemplo de um condomínio. Quando o elevador quebra, não importa o que pensamos do estilo de vida do vizinho. Importa se seremos capazes de viabilizar o conserto. Da porta pra dentro, que cada um viva como preferir.
No condomínio Brasil, há muitos elevadores a serem consertados. Viabilizar um concerto de tolerância mútua. Eis a missão liberal do nosso tempo.



Muito bom!